“Voltar para casa”. Por: Ana Reis

Produção dedicada ao Frei Renato Zanolla, publicada na Revista Despertai para o amor – edição 10.

“Na casa da alma existem muitos cômodos”.

É vasto espaço, por isso a solidão é no humano o sinal do infinito, profundidade, extensão e transcendentalidade.

na-casa-da-alma-existem-muitos-cômodosAs pessoas tendem a entender mal a solidão, este vazio que nos acompanha. É natural, principalmente se tivermos o hábito de olhar muito mais para fora. Sim, a grama do vizinho parecerá sempre mais verde do que a nossa, se não conhecermos a riqueza que há na solidão. E se olhássemos para o nosso jardim?

Para as grandes e antigas árvores que temos ao redor da casa, as flores, o efeito das estações nessa “nossa natureza”. Se olhássemos com atenção para a nossa casa interna…

na-casa-da-alma-existem-muitos-cômodos-2Casas amplas cabem de tudo, jardins também. Poderíamos cuidar das ervas daninhas e quem sabe limpar a casa vez ou outra. Poderíamos mudar os móveis de lugar, replantar algumas flores, quem sabe…

É compreensível que as pessoas abandonem a nossa casa, que deixem de cuidar do nosso jardim, mas nós não podemos! Não podemos abandonar o que é nosso, o que nos constitui. Você não pode abandonar-se. É preciso encontrar meios de resgatar o caminho de casa quando somos afastados de nós mesmos.

Não é incomum que sejamos deslocados, arrancados de nós por circunstâncias que o viver nos impõe. No entanto, é preciso que tenhamos a preocupação, se não for possível o desejo, de voltar pra casa… “Quem eu sou, onde está o meu eixo…” , perguntas que jamais deveriam deixar de existir em nossa consciência.

Perdas, mudanças, medos, tristeza, dor… podem soterrar quem somos. E se não prestarmos atenção nisso, corremos o risco de ficar tão distantes de nós mesmos que com o tempo, é bem provável, que já não sejamos capazes de definirmo-nos. Por outro lado, transformações podem revelar cômodos que ainda não conhecíamos na casa de nossas almas, árvores novas, e trechos do terreno ainda não explorados do jardim. Podem inclusive despertar para o quê ou quem somos realmente, talvez “como” gostaríamos de ser, revelando-nos algum sentido novo para a vida.

Gosto de olhar para as transformações desse jeito, como “devoluções”. Vêm para que eu me seja devolvida, elas vêm para a minha entrega. Fazem crescer uma espécia de idoneidade interna, fidelidade de casa e alma. E quando então, volto para o endereço que me pertence, embora esteja “apenas” comigo, me sinto em paz. Me re-conheço e novamente posso acompanhar-me vida afora.

Não acredito que situações difíceis aconteçam para nos ensinar isso. Não mesmo, essa não seria uma pedagogia amorosa, mas tenho certeza, tão clara como a luz do dia, que nós podemos dar esse destino àquilo que nos acontece. Fazer da mudanças e dores possibilidades de saber mais sobre nós mesmos, de voltar pra casa, de cuidar com amor do que é nosso, do nosso jardim. Isso é algo que podemos. É uma escolha difícil, porém nobre, deixar de fazer consigo o que o mundo nos faz, evitar repetir a violência e o desamparo do “lá fora” no “aqui dentro”.

Os girassóis voltam seu rosto para o sol, é desse modo que quero minha casa e meu jardim, voltados para a luz, e nesse compromisso, posso evoluir a partir daquilo que me acontece, buscando jamais abandonar-me, assim posso também confiar em mim. A solidão então, torna-se sinônimo de minha boa companhia, uma espécie de chance para o centramento, a possibilidade de ter demoradas conversas com meu jardim, regá-lo, nutrí-lo, sorrir para ele. Torná-lo aberto a visitações, consequentemente já não estarei sujeita ao mundo, não apenas como resultado vulnerável de uma história de tristezas. Quem chegar, me encontrará lá, sentada confortavelmente dentro de mim, disposta a oferecer uma poltrona macia com vista para as flores e uma deliciosa xícara de chá.

Isso me faz lembrar uma afirmação do escritor Jean Yves Lelloup:

“Podem arrancar-me a vida que tenho, mas jamais a vida que eu sou”.

Não importa quantas vezes o mundo nos faça perder o endereço. É sempre possível voltar para a casa.

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