Uma ponte entre o Amor Vivido e o Amor Eterno. Por: Ana Reis

Palestra proferida no 1º Seminário de Doação de Órgãos e Tecidos da Serra – CIHDOTT do Hospital Pompéia / 0P04. Agosto de 2011.

Homenagem a Katia G. Viana.

Coube a mim convidá-los para refletir, sobre a doação de órgãos dentro da perspectiva do Luto na Psicologia; e do Luto na Espiritualidade, com o intuito de instrumentalizá-los neste campo de atuação.

Um convite atrevido da Kátia, e de grande responsabilidade, agora de todos nós, porque afinal, o sim é a palavra que sentencia o nosso, como em tantos momentos da vida.

Se notarem com atenção é quase que uma regra da vida essa, se assim podemos dizer, que os “sims” nos carreguem para os “nossos”. Por exemplo, nossas sensações de culpa ou insatisfação, nossa dificuldade tão humana de tomar decisões, tudo isso está inteiramente mergulhado no campo do “nosso”, muitas vezes não reconhecido. Um nosso que acontece, por vezes “maquiado” aqui fora, mas tem a força do “não-dito”, ou do “não-reconhecido” pode nos transformar ou “deformar”… Essas são ideias interessantes para começar. Guardem-nas.

Bom, por si só, acredito que a instrumentalização técnica, racional, garante manter funcionando o desligado, ou seja, você liga no piloto automático e realiza bem suas tarefas. Dança porque tem a coreografia decorada. É um fazer pelo “saber fazer” e que abraça a competência profissional, talvez com baixo custo emocional (e aqui já estou me referindo as frentes de trabalho em luto e trauma).

Mas, também há uma instrumentalização que nasce de um mergulho no contexto de atuação, resulta numa ampliação da consciência, no aprofundamento e integração do profissional e da pessoa que há nele.  É o fazer pelo ser. Essa será nossa perspectiva hoje, numa proposição dinâmico-prática. Quando o dançarino respira a coreografia e ela se torna uma parte dele.

Isto quer dizer que não trabalharemos o luto primeiro do ponto de vista psicológico e depois espiritual…

Vou lhes contar pequenas histórias e vocês estão, porque são, livres, pra concluírem o que julgarem importante para cada um. Façam sua própria “costura”.

“Naqueles dias, subiu com seus discípulos a uma barca.

Disse Ele:

– Passemos até à outra margem do lago.

E eles partiram.

Durante a travessia, Jesus adormeceu. Desabou então uma tempestade de ventos sobre o lago. A barca enchia-se de água, e eles se achavam em perigo. Aproximaram-se dele e o despertaram com esse grito:

Mestre! Estamos perecendo! Ele se levantou e ordenou aos ventos e a fúria da água que se acalmasse; e se acalmaram e logo veio a bonança.”

Os discípulos ficaram aflitos porque a embarcação estava em risco de ser levada pelas ondas e pelo vento. O Evangelho diz que, durante esse tempo, Jesus dormia no fundo da barca, o “EU SOU” dormia no fundo da barca… Os discípulos o acordam; Ele se levanta e respira. Os ventos, nesse mesmo instante, acalmam-se.

Talvez tenhamos de, como os discípulos, despertar em nós o “EU SOU”, a consciência de SER. Pode que nesse sopro de ser, nessa grande respiração daquele que vive e nos atravessa, os nossos pensamentos e as nossas emoções se acalmem. Nada se destrói, nem os pensamentos, nem as emoções, nem a vida afetiva, mas tudo é reposto no eixo, tudo é reconectado com o fundo do SER.

(Jean Yves-Lelloup)‏

Daqui pra frente preciso do “eu sou”, que está sentado no fundo de cada barco, em cada poltrona deste lugar.

Estou convidando vocês a entrarem em contato com o que sentem. Contato pressupõe, como nas redes elétricas, ligação.

Nesse momento, precisamos de vocês “ligados”. Há 3 maneiras de contato/mergulho: (E aqui se inicia a instrumentalização técnica propriamente dita).

1º) Ouvir: Deixar as palavras passarem por você.

2º) Escutar: Deixar que as palavras entrem em você.

3º) Sentir: Deixar que algo inunde sua alma – transborde com você. Quando algo toma conta de nós, nos mergulhamos e somos mergulhados por isso (dizemos que assim é na relação amorosa, vínculo, onde o que transforma não está apenas no que sinto por você, nem no que você sente por mim, mas naquilo que há entre nós. Naquilo que nos une, no entre, o terceiro entre nós, o amor, Lelloup chama isso de Deus.

Há quem acredite que o “nosso” deixa de acontecer se investirmos menos, se não houver mergulho, ledo engano, o custo então passa a ser o da força do “não-dito”, do “não-reconhecido”, força muito mais perigosa. Tudo aquilo pelo que decidimos enfrentar com clareza e coragem (para sentir) sofre mais chance de resolução. E se torna sustentável.

Quando você decide se escutar pra valer, você torna-se de verdade. O amor é este mergulho que te habilita. Espaço atemporal de “levar-se a sério” (amor próprio). Uma bênção e um tormento; uma trans–forma–ação. Um sentir que te leva a um outro patamar… Que muda a tua “forma” e “ação” nesse mundo.

É a inteligência da amplitude de consciência, do “EU SOU” despertado. Uma experiência integradora física, mental, emocional e espiritual. Portanto, visualize nesse momento você aí dentro, levante sua mão, faça seus ventos, mares, tempestades cessarem… que cessem para que tu existas consciente nas 3 etapas do viver: ouvir, escutar, sentir.

1º) No início da vida ouvimos = (desligados) somos ainda o efeito do que acontece conosco. (Coreografia decorada)

2º) No meio da vida começamos a experimentar sentir a nós mesmos (meio desligados meio ligados).

3º) Na maturidade onde a ligação total acontece; nosso segundo nascimento… quando entendemos quem somos, já não somos apenas o efeito de nossa história, somos capazes de escolher a partir de quem somos; da confiança, respeito e conhecimento que temos em nós. É uma espécie de conversão, quando te convertes ao “EU SOU” e se entregas a fé que tens em ti mesmo.

“Estou aqui inteiro dentro de mim e me entrego a minha própria existência. E sem medo, pois hoje carrego em mim a certeza de que há muitas maneiras de existir”.

Quando então despertados do fundo barco de nossas almas, ligados, atentos, livres e maduros, podemos escolher com total segurança, porque com o “de tudo um pouco” já somos capazes de lidar. Estamos conscientes de nossos desejos.

Acendam suas luzes por aqui, ainda nesta caminhada, nessa travessia de mar, desejem! É função do desejo torná-los vivos, donos de si, mantê-los nascidos.

Na doação de órgãos que função então teria esse desejo? O que se mantém vivo nesse ato e o que seria morto?

O que são nossos órgãos se não os lugares por onde ficam inscritos os traços, os desenhos da nossa história, nosso corpo, nossa casa (nosso barco nessa travessia). Talvez a estrada por onde a vida passou.

Há algum tempo ouvi de uma mãe enlutada “Me incomodo quando dizem: Não vá ao cemitério, teu filho não está lá. Lá só tem o corpo”. Então, disse-me ela: “sim, é por isso que vou, lá tem o corpo que eu amei, abracei, ninei… Meu filho morava naquele corpo e na minha casa, embora hoje more na casa de Deus e no meu coração, eu amo aquele corpo também e o amo ainda hoje!”

Quantos corações, pulmões, rins, córneas, temos aqui e que histórias cada um conta…

De fato, neles, nossos órgãos, estão os registros dos nossos medos, através dos derrames adrenérgicos, os registros de nossas alegrias e prazeres; serotonina, endorfina, as batidas, os choques, as preocupações vividas. Está aí no piano, no violino, teus instrumentos por onde sua vida “toca”, anda.

A perspectiva da morte deveria definir, sentenciar a doação?

Se isso te parece, coerente, pense mas seria para quem além de ti? Para quem mais vale esse pensamento?

Em nossos órgãos estão desenhadas as marcas da nossa existência, as vezes marcas tão intensas, pesadas, que chegam a se caracterizar doenças, dores, amputações…

Nossos órgãos são o caderno, as folhas, os amassos, os rabiscos, os rascunhos da alma.

Quem são os especialistas em órgãos? Pensaríamos, os médicos, com certeza o caderno é deles. São os especialistas nas folhas, tipo de papel, encadernagem, aspirais, tinta, funcionalidade, etc.

Quem são os especialistas no que move a escrita? Os psicólogos.

Quem são os especialistas da alma? Os religiosos…

E no entre (lembram do “entre”), quem são os especialistas que entendem da ligação entre corpo-vida-alma? Existe algum? Que nome tem este especialista? Sem dúvida seria um nome que abraçasse a medicina, a espiritualidade e a psiquê…

Existe sim este especialista, você.

E ninguém mais do que você. Por isso, me perguntam como Psicóloga “Especialista em Luto”, qual é o tipo de perda que mais dói? A pior dor que existe é a tua! Ninguém poderá sentí-la ou dimensioná-la pra você ou por você.

Aliás dor e amor são ingredientes principais e tradicionais na resignificação de um vínculo (luto). Porque eles causam a consciência dessa ligação alma – escrita – caderno.

Por isso luto é trans-forma-ação, como o amor. Ele é o vendaval que chama o especialista “eu sou” do fundo do barco.

Você é, portanto, o único que carrega esse potencial para o “todo”. Você não é só alma, como um ser místico e não és só um caderno, assim como sua história de vida revela-se em cada linha escrita, em cada escolha tua.

Quem ou o que faria você arrancar uma folha do teu precioso caderno para oferecer para alguém e porquê? Ainda que valesse uma vida ou uma visão da vida (córneas)… E que trans-forma-ações isso implicaria, com que extensão? Com que consequências? Certamente teria que acontecer com a integridade do trio: caderno – escrita e alma de quem decide e, portanto, escreve…

Na profundidade de ter ouvido, escutado e sentido a decisão. Alguém poderia pensar “mas que bobagem! No final do ano letivo, o que fazem as crianças com os cadernos onde restaram folhas? Viram “novos” rascunhos, é claro!!

Há um tempo atrás, acompanhava um homem que perdera a esposa e pensava o que fazer com a aliança “dela”… Descarte, entregue pra alguém, derreta, venda… Parece tão simples… Mas este objeto era um órgão externo dela, um órgão que falava da “aliança” entre eles, um círculo de metal… Pois é, existem órgãos que carregamos nas capas dos cadernos, do nosso lado de fora. Desmanchar o quarto do filho morto é doloroso como doar os órgãos dele.

Quanto menos compreendermos o significado dessas escolhas nas dimensões integradas do SER, mais conflituosa será a tomada de decisão, a entrega e o cuidado tão frágil… Porque este trabalho acontece neste território sagrado. Por isso o cuidado precisa ser continuado e a construção de sentido para a doação precisa ser acompanhada para além da decisão.

A entrega pode se tornar mais confortável e segura se, por exemplo, construirmos a certeza de que não escolhemos para ficar com menos, já não basta o que a morte nos roubou?

Um bebê abre mão com sofrimento do seio da mãe. O que lhe proporciona conforto para essa adaptação é a certeza absoluta de que não ficará sem outra forma de nutrição ou sem o calor e o afeto da mãe porque encontrará outros meios…

Essa busca é uma espécie de garantia instintiva, está na força do apego, do amor. A garantia de ser considerado e de ter considerado tudo o que foi vivido a partir dos registros que carrega, do que sentiu, o que mais tarde chamaremos de “as nossas verdades”.

Uma garantia que com o tempo deixa de ser externa e concreta, que nos permitirá “aprender a amar em separado”… Uma segurança que nasce da consciência ampliada, do que construímos dentro de nós… o eterno.

Uma sensação imbatível de certezas que verte do seu banco de memórias e aquece o peito, apesar da separação e da fome. Algo que veja só, nos bebês, pulsa mesmo antes do surgimento da racionalização.

Este instinto de amar + nosso banco de memórias é o que torna “a morte não a ausência da vida, mas a vida fora de alcance”. O dispositivo de apego ligado apesar da distância e principalmente por causa dela. Como diria Camões; a certeza de que ‘se amor não se perde em vida ausente, jamais se perderá por morte escura, pois o amor é feito de alma que pra sempre dura’.

Intrigante e paradoxal que no luto, a mesma força que faz o peito sangrar, será aquela que nos fará seguir em frente. Pois assim é o contrato do amor, você não pode descuidar de algo de quem ama, logo não poderá descuidar de si.

Há doações que acontecem com essas certezas claras, acontecem para garantir a vida do amor dentro de todos

“Cuidei bem de tudo que é seu, e portanto, também de mim. A minha paz é a tua!”

Assim se tornará possível abrir mão de algumas folhas, para ficar com a alma e o amor, quando o “nunca mais” receberá endereço certo no “para sempre” de cada um de nós.

A construção do significado na doação exige essa “noção” de integração e profundidade. Qualquer coisa inferior a isso é, mas não em plenitude. Se há um processo para elaboração de luto, sem dúvida há um processo de elaboração para a doação.

Nessa perspectiva a saudade é o sintoma do amor vivo e a certeza do que nunca morre, onde a doação poderia representar o colo que abraça o bebê enquanto ele desiste do seio.

Vale lembrar que Deus fez nossos cadernos com folhas suficientes para durar 100 anos, porém, nosso mundo é um lugar inóspito e perigoso, logo, nosso caderno poderá fechar-se com poucas folhas utilizadas,  muitas praticamente em branco. Esse é um risco real, tanto quanto a ideia de que se tenho folhas para oferecer, porque impediria outros cadernos abertos de permanecerem abertos? Seria egoísmo da minha parte desejar que seus cadernos durassem 100 anos? E não seria se eu desejasse que seu caderno fechasse logo para salvar o meu?

Então, numa visão integrada das Ciências  e da Espiritualidade, é preciso considerar que:

  • Ninguém é dono da morte, ela, assim como doenças, acidentes, fatalidades, não estabelece critérios, não faz escolhas, e não respeita idades ou momentos de vida. Essa é uma verdade da estrada que protestamos para aceitar, nossa vulnerabilidade e ausência de controle sobre a vida.
  • De quem viria o “sim” que selaria o “nosso” e a paz, nessa tomada de decisão? Só poderia vir, em verdade, da alma daquele caderno que possuiu, através do amor, o caderno que agora se fecha. É exclusivamente este o doador, aquele que faz a entrega. Não aquele que morre, mas aquele que compreende que a morte é a noite serena da alma.

Mas acontece que no choque, torpor e medo que a morte mergulha para dentro da família que perde, se torna bastante difícil esta escolha. A construção de sentido integrada fica comprometida, uma vez que muitas coisas serão compreendidas com mais tempo, tempo que ali não se tem.

Porém, se nessa escuta a família que sofre a perda, encontrar uma ponte, a construção de sentido será ancorada! Aí está o começo, como pontes, ajudem as pessoas nos momentos de dor enxergarem com profundidade, ajudem-nas ver que podem não ter ficado com menos, ajudem-nas a sentir a conexão, o entre, a ligação caderno – escrita – alma. Mostrem a elas de forma serena a presença do principal especialista, o “eu sou”.

E para isso, desenvolvam-na em si mesmos.

Olhem para o que parece banal, simples ou ruim, com mais profundidade, amplitude, integração. Acendam seu dispositivo instintivo de amar… Vejam não apenas com os órgãos, não só através do caderno, não apenas ouvindo ou escutando, busquem sentir e agreguem a sua alma nisso, busquem entender o que sentem e usem isso como informação importante.

Cuide do cuidador que há em ti, teu “eu sou” é um guardião de profundas e estruturantes travessias. Cuide da ponte que tu és! Saia da ingenuidade, faça o que faz sendo dono, consciente da história que escreves em teu caderno.

Acorde, desperte, reconheça o valor das tuas escolhas, decida nascer mais uma vez, levanta-te do fundo de teu barco, faça tua travessia de mar, nessa vida, com desejo, promova a autonomia, tatue teu nome na capa do teu caderno.

Se sentires isso pulsando em ti, diga sim, porque então o processo a partir do teu sim será natural e espontâneo.

E todos que atravessarem teu caminho sentirão também, e serão ajudados pela mesma força integradora.

Então, como vocês, terão a certeza de ter cumprido sua missão e a paz que nascerá disso, será o combustível que sustentará que sigas em frente com leveza, apesar de todas as dificuldades e com apropriação.

O corpo é uma estrada.

A vida é andar…

A alma está em sentir a caminhada.

O amor é o que a alma registra, é o que permite mudar de estrada sem deixar tuas riquezas para trás.

E o universo? Todo universo é uma fazenda.

E a morte? Passagem de noite serena…

Trago-lhes um presente, Paula Fernandes, sintam essa letra escrita por este caderno aberto de Deus.

 “De onde é que vem esses olhos tão tristes?

Vem da campina onde o sol se deita

Do regalo de terra que o teu dorso ajeita

E dorme serena, no sereno sonha

De onde é que salta essa voz tão risonha?

Da chuva que teima, mas o céu rejeita

Do mato, do medo, da perda tristonha

Mas, que o sol resgata, arde e deleita

Há uma estrada de pedra que passa na fazenda

É teu destino, é tua senda, onde nascem tuas canções

As tempestades do tempo que marcam tua história

Fogo que queima na memória e acende os corações

Sim, dos teus pés na terra nascem flores

A tua voz macia aplaca as dores

E espalha cores vivas pelo ar

Sim, dos teus olhos saem cachoeiras

Sete lagoas, mel e brincadeiras

Espumas ondas, águas do teu mar

 “Ninguém pode livrar os homens da dor, mas será bendito aquele que fizer renascer a coragem para suportar” (Selma Lagerlof)

Obrigada.

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