O luto e a força do amor. Por: Ana Reis

Correio Riograndense, 29/10/2008.

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Embora doloroso, e exclusivo, o processo de luto pode tornar-se enriquecedor

No filme “O amor é contagioso”, o personagem principal Patch Adams (um médico, representado pelo ator Robin Williams) tenta contato com um paciente de meia idade, portador de C.A. avançado, que se comporta agressivamente, impedindo-se de receber o acompanhamento da equipe hospitalar.

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Depois da primeira tentativa frustrada, o médico decide vestir-se de anjo. Entra no quarto com asas enormes, e um sorriso doce, dizendo com diferentes nuances no tom de voz: “Morrer… falecer… acabar… cessar… desembarcar… bater as botas… apitar na curva… receber alta celestial…o último suspiro… a sete palmos… de vela na mão… sonho eterno… deixar esta vida… fechar o palito… adeus… the end… esticar as canelas…”

A reação do paciente, que esperaríamos fosse expulsar o médico, foi de silêncio e surpresa. Absorto pela figura estranha e afetuosa, que agora compunha o quadro do seu quarto, após alguns segundos “cai” em gargalhadas, que contagiam o médico Patch. A partir daí, ambos iniciam um diálogo, tornando-se grandes amigos. Amizade que autoriza Patch a ajudar o paciente a compreender a vida, a doença, e a despedir-se com dignidade, conforto e tranqüilidade. Falar da morte, ainda que através de apelidos, continua sendo difícil. Mesmo para aqueles que não estão diretamente envolvidos em uma situação de luto. A Dra. Maria Júlia Kovács, do Laboratório de Estudos sobre a Morte e o Morrer (L.E.M./USP/SP), utiliza a expressão “morte interdita” para definir como nos referimos ao tema atualmente.
Quando decidi me dedicar a essa área da Psicologia, as pessoas se admiraram, e não era incomum encontrar alguém na rua que dissesse: “Oi, quanto tempo. Que bom te ver. Esses dias me lembrei de ti, sabe quem morreu?”. Certamente, também os profissionais que trabalham com luto carregam o estigma da morte e terão que lidar com as reações sociais acerca do tema.
As pessoas se afastam ou se aproximam do luto de maneira muito atrapalhada, porque realmente não sabem o que dizer. Esse é o “efeito tabu”, que torna a morte inominável, proibida, não pela lei, mas pelo temor e angústia que gera.
O tabu sobre a morte e o morrer pode estar focalizado em diferentes aspectos para cada um de nós. Por exemplo: o que é mais difícil para você quando pensa na morte? O processo do morrer? A circunstância da morte em si? Dor física? Adoecimento? Dependência? Morte acidental? (Há quem prefira morrer de ‘póf!’, repentinamente, sem aviso).
– A idéia de deixar de existir? Deixar tudo que é seu? Preocupação sobre quem vai se apropriar do que é seu e o que farão? Em que momento você partirá?
– E depois da “passagem”? O que acontecerá com seu corpo? Com sua alma? (Isso se você acredita que tem uma. Tenho amigos que não acreditam na existência da alma).
– A despedida? A saudade que sentirá de todos que ama? Ou que deixará nas pessoas que amam você? As sensações de desamparo? Impotência?
– O temor em sentir a dor da separação? Aquelas emoções intensas como revolta, culpa, medo, anseio, ausência de sentido…?
A grande maioria das pessoas pensa que não deve sentir dor, “se entregar a ela”, porque é desorganizadora e fará o indivíduo “desabar” e se isto acontecer “não se erguerá mais”.
Dois enganos: primeiro porque pressupõe que teríamos o controle sobre tudo na vida, a chance de escolher nunca morrer, nunca perder ou perder, mas não sentir. Segundo, esse mito de que “se você se abater, não se recuperaria mais”, além de ser uma fantasia, estimularia a Síndrome de Luto Complicado Crônica (S. L. C. C., Rando, 1993). Considerando que, quanto mais, no aparelho psíquico, a consciência foge ou nega administrar a dor da mudança (princípio da realidade), tanto mais o indivíduo se aprisionará, incrementando seus sintomas de luto.
Portanto, quando pensarmos em luto, e o vivermos, não será possível “superá-lo”. Teremos que atravessá-lo, evoluir através dele. É bastante paradoxal que num primeiro momento, o mesmo amor que nos estilhaça ao perder, fará com que sejamos capazes de mais do que sobreviver, reinvestir na vida.

A grande dor constrói desafios

Por incrível que pareça, o processo de luto, como uma experiência emocional, poderá tornar-se intensamente enriquecedor, embora doloroso. Grandes dores trazem grandes desafios. Se você vive uma crise financeira, você muda, reconsidera antigos valores. Mas, se perde alguém que ama, você se “trans-forma”, ultrapassa a antiga forma, “trans-cende”, integra-se, ilumina-se. A transformação lhe será duradoura, com implicações negativas e positivas. Muito dependerá do destino que você oferecerá para esta experiência em sua vida.
O luto é um processo exclusivo e intransferível, onde não existem respostas certas ou erradas, nem receitas de enfrentamento. Talvez esse seja outro aspecto que caracteriza a morte como tabu. Quando acontecer, você terá que construir a sua caminhada, a seu modo e no seu tempo. Justamente porque o que conta é a sua forma de amar.
Costumam perguntar-me “qual é o pior tipo de perda que existe? De filhos? Pais? Esposo(a)?”. Acredito que a pior dor é aquela que você sente. Por isso, torna-se difícil comparar ou graduar dores. Dói porque amamos, e viver sem amar não é viver. O amor é, portanto, uma bênção e um tormento. No luto, uma bênção porque o amor não precisa de reforço (contato físico constante) para continuar existindo. Uma vez amado, para sempre amado. Tormento, pois teremos que aprender a amar em separado. Deixar que o vínculo permaneça ainda que transformado. Redescobrindo maneiras de sentir saudades perdendo menos. Não sofrer mais do que o necessário e não sofrer para sempre.

Silêncio acolhedor e mão estendida

“Em decorrência do que tenho vivido eu acredito no que não posso ver”. (Tennyson, 2000). O mundo abstrato e invisível de nossos sentimentos, significados e pensamentos é bastante real, influencia intensa e profundamente o que podemos ver e fazer. Por isso, diante das incertezas da vida, é preventivo buscar pessoas que saibam escutar, amparar e tolerar. Com isto não reduziremos as incertezas, mas construiremos uma rede de proteção, circuito de apoio, que nos fortalecerá e permitirá segurança para o enfrentamento da perda. Afinal, é ainda mais doloroso ficar só e incompreendido nesta experiência.

Cuidadores – Como cuidadores nosso trabalho é permitir, auxiliar, respeitar, avaliar riscos e ampliar opções; “manter as portas abertas e guardar as travessias” (Bromberg, 2003). É reconfortante saber que temos com quem contar, e é suficiente.
Anos atrás, durante um atendimento, sentia-me talvez tão impactada quanto a família, não conseguia sequer pensar… Optei por “simplesmente” estar com eles. Tempo depois, recebi um fax dessa família dizendo: “Jamais esqueceremos do teu olhar sobre nós, teu silêncio acolhedor e tua mão estendida”. Acredito que todos aqueles que vêm em busca de ajuda nos ajudam também. Aprendi muito com eles. É maravilhoso ver as pessoas recomeçarem, preservando um lugar em seus corações para seus amores de ontem, de hoje e de sempre. Viver é compreender que o que é verdadeiramente importante jamais será deixado para trás.

Uma forçosa caminhada de intensos ‘re-ajustes’

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Assimilar a morte de alguém amado leva tempo. Assimilar significa olhar para o passado tantas vezes quantas forem necessárias, até conseguir colocar dentro de você algo que já lhe aconteceu do lado de fora. O luto é uma “forçosa caminhada” (Parkes) de intensos “re-ajustes”, para as discrepâncias que percebemos entre o nosso mundo interno e o externo.

o-luto-e-a-força-do-amor-4 Portanto, olhar para trás será fundamental, não para mudar o que ocorreu, mas para resgatar significados, compreender o que foi vivido com clareza, reconstruindo, reintegrando aspectos perdidos de nós em quem amamos e deles em nós. É reconhecer, apropriarmo-nos do que foi, e sempre será nosso, elaborar e, por que não dizer, “libertar-se”, selecionando “com o que é importante ficar”. Encontrando as lembranças que realmente valem à pena, dando a elas um bom lugar para que fixem endereço dentro de nós. Só então nos sentiremos autorizados a “seguir em frente”, em uma vida coerente, digna, reconciliada. “Feliz”, ainda que de uma maneira diferente daquela vivenciada antes da perda. Uma mãe enlutada dizia-me: “A gente não desiste de viver pelo bem que nossos filhos fizeram a nós, e pelo bem que fizemos a eles, esse era nosso contrato de amor”.
A antiga sensação de segurança ilusória de que a morte é algo que “só acontece com os outros”, no luto, vai dando lugar à consciência de que “construímos certezas em terreno pantanoso” (Casali, 2006). Poderíamos pensar na vida como um solo fértil, sujeito às estações e à influência do meio, onde as sementes podem ser jogadas e cuidadas por nós, de acordo com as nossas possibilidades e os limites impostos. Assim, não são os fatos em si que importam, mas o que sentimos e o significado que extraímos de tudo que vivemos.
O filósofo Thomas Attig (2006), no último Congresso Internacional de Luto em SP, dizia: “Procure seu amor eterno. Ele está em algum lugar perdido em suas lágrimas, lembranças, legado, aprendizados… Nas músicas, bolos, sorrisos, biscoitos compartilhados. Quando o encontrar reconheça-o. Esta é a única forma de retecer o rasgo deixado pelo luto na teia de sua vida”.
Há vida por todos os lados, o luto está repleto de vida. Ele é na verdade um meio especial de demonstrar e sentir o amor, de re-velar (re-cuidar) a vida. “O que é infinito não é meu amor, nem o amor de você, mas o amor que nos une” (Leloup).
Ouvi dizer que todo rio poderia temer seguir seu curso, porque ao encontrar com o mar morreria. Deixaria de ser um rio para ser e pertencer ao mar. Talvez a morte seja esta passagem, do rio de nossas histórias, para o mar de quem amamos, onde o doloroso “nunca mais” pertencerá ao “para sempre” de cada um de nós.

A importância da espiritualidade

Um colega, amigo, destes que não acreditam na alma, do tipo que gosta de dizer em “alto e bom tom” que é ateu, confessou-me: “Ainda que você não acredite em nada, nada é algo em que você acredita”. Todos nós temos fé, embora cada um a direcione a seu modo.
Nesta intersecção psicologia e espiritualidade, crer em algo que nos ajude a viver o processo de luto, construindo um lugar amoroso e tranqüilo para quem amamos e perdemos, será fundamental. Há duas grandes armadilhas no luto: uma é deixar que a dor ocupe o lugar de quem você ama em seu coração; outra é, espiritualmente, aprisionar-se no abismo infinito das dúvidas, imaginando e re-imaginando “quinhentos” caminhos para ficar sem nenhum.
Nos primeiros anos do luto é esperado questionar, com aflição, antigos conceitos espirituais. Ainda que o enlutado não mude de religião, certamente acabará por desenvolver uma nova forma de acreditar. Diríamos “uma fé mais realista”, que se aproxima de sua nova realidade.
Observo que quanto mais ecléticas forem as buscas por respostas espirituais, maiores poderão ser os riscos de incrementar as confusões mentais e emocionais. De outro modo, uma crença unificadora e ancoradoura poderá facilitar a recuperação ao longo do processo de luto.
A espiritualidade, então, torna-se um importante recurso de enfrentamento, permitindo-nos criar um mundo e crer nele, de acordo com o que fará sentido e reconfortará a cada um de nós. Podemos nos sentir reassegurados para viver se tivermos um bom lugar para ir quando morrermos (não parece lógico?). Da mesma forma, no luto, diante da sensação de insuficiência e impotência, uma fé saudável trará sustentação e pertencimento, atenuando os sintomas previstos.
A questão é: você terá que escolher e confiar no que acreditar. Isto também levará tempo, as respostas virão de dentro. Conversando com uma menina de 8 anos (que perdera a mãe há dois anos), me encantei com a riqueza simbólica de seu relato: “(…) e depois o corpo dela foi pro cemitério. As vezes, no dia das mães eu vou com a minha dinda levar flores lá. Mas a alma, sabe? Aquela parte da gente que tem o amor e a saudade… essa parte dela tá num jardim, é num outro mundo. Não é o céu daqui que a gente vê. Só quem morre vai pra lá. E lá tem tudo que a minha mãe gostava, por isso, acho que a saudade dela é menos que a minha. Ela adorava jardim. As vezes quando eu rezo, falo com ela. Acho que os anjos escrevem o que eu digo e entregam pra ela, como uma carta, sabe? Eu sei que ela tá feliz. Eu também tô. Só que as vezes tenho muita saudade, daí rezo e mando a carta pro anjo levar. Quando eu ficar bem… beeemm velhinha, vou morrer também e daí vou me encontrar com ela. Só que no céu da gente vai ter sorvete pra todo mundo. Diz que lá no céu só entra coisa boa. Bom isso né? Porque daí quem morre fica protegido e não tem que aturar nada de ruim, tipo escola, tema…”.

Adulto complica o luto da criança

Para as crianças, precisaríamos de um capítulo a parte. Administram o luto com muito mais plasticidade que os adultos. Normalmente, os adultos é que complicam as coisas para elas.
Sob qualquer circunstância de luto, vale lembrar: a comunicação deve ser honesta e concisa. Atenção, compreensão e presença propiciam que o cuidado aconteça gradativamente, em cada etapa do que será vivido.
Assim, por exemplo, quanto à participação das crianças no ritual fúnebre: em primeiro lugar, devemos noticiar a morte para a criança, preferencialmente em casa. Alguém que ela ame e confie deve contar, evitando o uso de metáforas. A seguir, explica-se de maneira simples o que está acontecendo no momento, e depois de escutá-la, acompanhando com naturalidade e aceitação suas reações, propomos a ela pensar se desejaria participar do movimento de despedida (velório). Se a criança concordar, para reduzir a angústia que poderá sentir a partir do que verá, sugere-se antecipar a ela uma descrição rápida da sala velatória, incluindo a noção de que o corpo estará deitado em uma “caixa” (urna) e a idéia de que lá os adultos estarão tristes e emocionados, pois também sentirão saudades.
Ainda considerando as reações dos adultos, pode ser facilitador para a criança ir ao velório evitando a abertura da sala velatória, e o momento em que a urna é fechada (reduzindo o impacto e o medo que a criança possa vir a sentir).
Uma maneira inteligente de a criança defender-se de intensas emoções poderá ser não demonstrá-las. Isso não significa que não sinta. Logo, outra dica valiosa é alertar o familiar-cuidador (normalmente é eleito pela própria criança), para permitir a ela estabelecer com ele uma espécie de “cola”, mantendo-se bastante próximo, desde o momento do ritual, englobando os próximos dias, para que a criança preserve a sensação de estar segura.
É muitíssimo importante não forçar a criança a fazer coisas que não queira, como tocar ou beijar a pessoa falecida, ir ou não à escola no dia etc. Bem como, ao longo do processo de luto, recompensá-la com presentes ou realizar rapidamente novas mudanças (escola, endereço, doar os pertences da pessoa falecida…) sem que participe ou dê-se por conta. Evitar ou impedir que a criança saiba da morte e participe do processo de luto familiar é correr o risco grave de excluí-la, abandonando-a em sua dor e dúvidas.
De modo geral, podemos pensar no luto como um tempo de necessidades especiais (Parkes), que, num jogo de luz e sombras, vai nos re-velando. Se, primeiramente, nos sentimos incompletos pela separação, mais tarde alcançaremos identificações e introjeções de quem amamos, mais integrados e fortalecidos. Instrumentalizados para reconstruir sentido e viver inclusive no caos. Capazes de buscar e oferecer ajuda, despertar do adormecimento e da cegueira que a dor causou, para um novo amanhecer.

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