Estou para me Aposentar. E agora, como enfrentar e pensar essa nova realidade…

Matéria para Jornal da UCS-Nov.2015.

(Ana Reis)

Muitas são as maneiras de abordar e compreender momentos de mudança ao longo da vida. Existem olhares um tanto positivistas, outros quem sabe, pesarosos demais.

No entanto sabe-se que nos referenciamos melhor quanto mais próximos e objetivos pudermos ser do princípio da realidade a fim de melhor compreender inclusive as subjetivações que fazem parte do processo do viver e suas mudanças .

É a partir desse olhar que a proposta de compreender os desafios da aposentadoria  aqui  considerados,  trazem uma perspectiva nem relativista e nem absolutista, mas a partir do real, uma relacionalidade de fatores complicadores e facilitadores deste processo de transição.

Ao longo do ciclo vital transições ou mudanças podem ser relacionadas a processos de luto, ou seja, eventos que demandam temporário transtorno de ajustamento.

Isto porque diante de um movimento de mudança o sujeito depara-se com limites e naturalmente terá que administrar sensações de incompletude, necessitando um pouco mais da compreensão e suporte daqueles que lhe cercam.

Mudanças naturalmente demandam que sejamos mais bem compreendidos e suportados, não apenas por nós mesmos, mais ainda por quem nos acompanha.

Por isso atualmente a ciência utiliza a definição de transições bio-psico-sociais para o enlutamento. Expressão que aqui então não deve nos assustar, pois não está, como no senso comum, associada a morte física, mas a outras perdas do ciclo vital, onde também a aposentadoria se encaixa.

No ciclo evolutivo viver implica ampliar a consciência, desenvolver habilidades e recursos biológicos, psicológicos, sociais e resiliência, transcender a concretude a caminho de abstrações e complexizações adquiridas lentamente. Valores cuja sustentabilidade para o enfrentamento de outras adversidades revelem-se em diferentes etapas, cada vez mais a partir da profundidade e solidez do Ser. Dinâmicas viabilizadas pelo sempre desafiador movimento de ter que abrir mão do antigo para dar lugar ao novo.

Assim em cada etapa, do nascer ao despedir-se, para que as transições tenham um resultado favorável a serviço das adaptações impostas pelo viver, parece necessário que a pessoa suporte com clareza, oscilações de emoções, primeiros sinais de confronto com as mudanças.

A seguir e dialogando com as mesmas, assimile a partir da expressão e reconhecimento destes afetos e dificuldades compartilhadas, os desafios de cada fase, recordando, repetindo tanto quanto necessário os novos acontecimentos e desafios, a fim de completar sua adaptação ao novo.

Parece que a pessoa só poderá compreender e de certo modo resignar-se, reconhecendo gradualmente, que tais mudanças são duradouras e que sua vida deverá ser reconstruída, ou ajustada novamente se, puder tolerar portanto, certo abatimento pelo que foi perdido, uma busca mais ou menos consciente acerca do passado, o exame por vezes interminável de como e porque tais mudanças ocorreram e a revolta em relação a qualquer fator, instituição, ou indivíduo que de algum modo pareçam-lhe relacionados a mudança sem poupar nem mesmo a si.

Assim, é ao fim dessas elaborações que parece possível registrar perfeitamente que seus antigos padrões de comportamento tornaram-se limitantes e precisam ser modificados.

Logo, vale lembrar que transições podem invalidar antigas hipóteses que utilizávamos para viver, hipótese que penetram em muitos aspectos de nós mesmos e da vida como um todo.

Hábitos de ação, em mudanças, terão que ser revisados. O que gera circunstancialmente temor, insegurança, vulnerabilidade para as antigas referências usadas no enfrentamento do mundo como antes presumido.

Transições são, portanto, uma espécie de êxodo, nos  impulsionam para um novo território, em novo caminho.

Como em transições é necessário rever e transformar antigos padrões de pensamento, sentimentos e ações antes de modelar outros, novos, é quase inevitável que a pessoa em transição sinta-se, em certos momentos assustada pelo fato de que não é possível evitar as mudanças e consequentemente torne-se temporariamente apática, sem energia, talvez deprimida.

Porém, se tudo correr bem, esta fase em breve começará alternar-se a uma em que a pessoa certifica-se de que pode avaliar sua nova situação e examinar as melhores maneiras de enfrentá-la. Isso implicará naturalmente numa redefinição de si mesma, bem como de sua situação atual.

A Aposentadoria vista como um conjunto de mudanças imersa no ciclo vital torna-se, desse modo, uma intensa etapa de transição que tende a ocorrer na saída da maturidade e entrada no envelhecimento, transição por isso, mergulhada  em ainda outros desafios deste período da vida, tais como:

-Quando ocorrem as primeiras noções experienciais sobre a perda da vitalidade e resistência física;

-Estranhamento de si mesmo em relação ao ritmo biológico para desenvolver diferentes atividades, quando então o envelhecimento vai se tornando mais notável;

-Surgem, neste período, as primeiras considerações sobre a morte como evento pessoal;

-Sensações de aceleração e corrida contra o tempo acompanham uma busca mais intensa por segurança e saúde.

-Na família o ninho vazio instaura-se, quando os filhos já saíram para constituir suas novas famílias e o casal precisa reaprender a conviver apenas a dois;

-Temor pela perda de pessoas queridas, mais velhas e amigos;

-Temor pelo futuro que oscila com sentimentos mais positivos de constatação pelo apreendido e o direito agora certificado e preservado pelas experiências da vida e da idade de Ser livre para dizer mais abertamente de Si, na sabedoria então conquistada;

-Noções íntegras e integradas sobre o que é Ser e o que é viver;

-Conflito entre a percepção de abrir mão, abandonar, ou permitir que mudanças ocorram tentando manter o máximo de autonomia e identidade.

Paralelo a estes desafios ocorrem também os previstos e exclusivos da aposentadoria que são:

-A perda de papéis sociais, profissionais e produtividade;

– A perda do papel de provedor, com risco de baixa renda mensal;

-O temor pela falta de afeto ou reconhecimento, na medida em que as funções mudam;

-Temor pela dependência não apenas financeira, mas em função de algum adoecimento que exija cuidados, pois no senso comum há uma presente confusão associativa entre aposentadoria, viuvez e adoecimento, que é um equívoco;

-A perda do status e da rede social relacionada ao trabalho;

-Sensações de morte social;

-Confusão entre curva física descendente no desenvolvimento e a ascendente sabedoria;

-Para a esposa, a presença do marido mais tempo em casa, observando agora sua rotina e afazeres, tornando necessário talvez que realize mais refeições ou que ofereça a ele maior atenção, processo que exige, de ambos, tolerância;

-Para o esposo que tendo mais tempo, realiza alguns afazeres para a esposa e a seguir não sabe bem o que fazer com seu tempo, não desejando interferir demais na rotina e organização da casa e tarefas. Por vezes, certa sensação de desajuste, pois ambos poderão perceber que o outro, têm interesses que não o incluem, pode incorrer em uma sensação de sentirem-se intrusos, um na rotina do outro;

-Quando a esposa ainda trabalha e o marido se aposenta, a esposa poderá ressentir-se pelo tempo livre do marido, enquanto o marido interfere nas tarefas de casa e poderá ressentir-se por não ter mais o papel de provedor e ainda por desejar ajudar na casa de algum modo e não ser compreendido;

-Provável e temporária sensação de inutilidade;

Aspectos que podem tornar-se facilitadores para a adaptação a esse ciclo de mudanças:

-Conversar sobre as mudanças e dificuldades tentando reconhecer o que é esperado e normativo viver neste período, contextualizando as oscilações e demandas diferenciadas.

– Rever a realidade anterior e trazer a mente para o tempo real, esforçando-se para compreender a transição e o presente na redução do senso crítico exigente ou acirrado.

-Permitir-se ao novo, flexibilizar, experimentar; onde há vazio, de um tudo cabe, mudanças podem trazer renovações importantes, alívios, ventilação, espaço, fluência e clareza. Nas palavras de Moltmann, Teólogo alemão; “atrás de cada fim esconde-se um novo começo.”

-Testar, mudar o olhar, tentar encontrar maneiras sempre melhores para viver a nova rotina junto a quem se ama, exige ousadia, mudança de atitude e desejo pelo inesperado .

-Temporalizar, ofereça –se tempo para resmungar, protestar, sentir e reconhecer o que sente, busque  mudar devagar respeitando seu próprio ritmo. A adaptação funciona e sustenta-se melhor quanto menos radicalizamos nossas formas de enfrentamento.

-Cultive, valorize interesses pessoais, a aposentadoria pode ser o “recomeço do jeito que eu quero”.

-Esposas e esposos talvez precisem reduzir expectativas em relação as atividades de arrumação e cuidados, novas rotinas que serão re-instaladas em casa . Maridos precisam lembrar que as mulheres estiveram na liderança dos cuidados da casa por anos então devem chegar negociando. Vale a pena rever os arranjos domésticos com clara divisão de responsabilidades e tarefas.

-Mantenha o bom humor e sempre que possível verbalizem os desafios de modo divertido e interessante.

-Manter um tempo para desenvolver prazeirosas e novas atividades em família e no casal promove a resiliência.

-Manter uma boa relação consigo e com todos que ama é tão importante em adaptação em mudanças quanto os cuidados com a saúde.

-Desafie-se, exercite a mente e o corpo.

-A família tem papel importante, porém é de fato quem se aposenta que deve informar a família sobre o que está experienciando, uma vez que quem está do nosso lado de fora dificilmente alcança a nossa experiência íntima de enfrentamento e transformação. Para isso, reuniões familiares podem se tornar inicialmente eficientes espaços de troca de informações, onde pode tornar-se possível esclarecimentos, auxílio adequado e suporte. Construir um bom circuito de apoio familiar e saber solicitar por ajuda quando necessário é tarefa de quem se aposenta também, não apenas de seus familiares. Textos informativos podem ajudar.

Se fosse possível categorizar os verbos da existência que auxiliam na evolução humana, para a vivência e o enfrentamento de adversidades,  transições e adaptações, talvez os que seguem, nesta ordem de aplicação e importância, para cada etapa, fossem os considerados principais:

Vincular, Amar.

Validar

Nominar, Identificar

Contar

Recontar

Compartilhar

Esclarecer

Compreender

Discernir

Organizar

Testar

Assimilar

Escolher

Recuperar

Repara

Perdoar

Reconciliar

Previsibilizar, Confiar

Continuabilizar

Ressignificar

Aplicar

Reorganizar

Concluir

Generalizar

Conhecer

E desejar sempre…

Porque amar é o primeiro movimento, verbo… Talvez porque só seja possível um lá fora, quando há um seguro aqui dentro. Toda recuperação e adaptação parece ter início quando a partir da consciência de Si, do SER, o cuidado é expresso em palavras e vivências no cotidiano, como nosso compromisso eterno de amar quem amamos, de SER o que amamos e de oferecer o que amamos, porque afinal amar é o que somos, mas fundamentalmente é o que nos torna SER.