Espiritualidade nas Organizações. Por: Ana Reis

Artigo para Jornal Rota da Informação: Plimor . Agosto de 2015, número 39.

De fato temas como Espiritualidade, Religião, Inteligência Emocional e Espiritual, Ciência e Fé, Propósitos de Vida, Construção de Sentido, Resiliência, Suporte, Fortalecimento Humano, Humanização, Cuidado, Liderança e Excelência Profissional, “Superação” de Traumas, Luto, Enfrentamento de Emergências e Adversidades em geral, bem como Transtorno de Ansiedade, Pânico, Diferentes Quadros Depressivos, Falências Pessoais e Organizacionais, Rompimento de Vínculos Afetivos, Suicídios… Nunca estiveram tão em voga quanto na modernidade. Por que será?

No senso comum e brevemente podemos pensar “é a modernidade”… E muitos de nós só chegam até aí, afinal são tantas as coisas das quais hoje temos que cuidar que se torna difícil ter energia e tempo suficiente para ir adiante à reflexão. É um desafio investir energia para ampliar o olhar e análise para o contexto em que estamos mergulhados e do qual também somos reflexo, por vezes infelizmente, por vezes muito felizmente, pois apesar dessa primeira visão carente e um tanto assustadora da humanidade é inegável que os recursos que temos hoje em muito também nos enriquecem. Muitos podem pensar que este é o preço que pagamos por crescer, quem sabe “evoluir.” Talvez por isso como canta Almir Satre, estamos na estrada, nessa travessia chamada vida, buscando uma postura mais leve para andar; “Tocando em frente”. Entre evoluções e involuções, progressões e regressões. Para alguns parece importante valorar que saibamos reconhecer o mapa, a viagem, não necessariamente o ponto de chegada, para outros, que sejamos capazes de discernir, além disso, onde, ou no quê, estamos avançando e/ou retrocedendo, muitas são as demandas.

Na prática da vida diária a verdade parece mostrar que nossos espaços de descanso são tão raros, por vezes tanto quanto nosso tempo para estar com quem amamos, tempo para pensar ou para estar consigo. Estamos cansados. Talvez vivendo cansados, entre estresses agudos, adaptativos, e crônicos, estamos sedentos de Ocitocina.[1] Ora, interessante é saber que Ocitocina é o Hormônio dos Vínculos, encontrado, ou seja, liberado, na corrente sanguínea quando do parto, durante a amamentação, ou contato afetivo no cuidado íntimo com o bebê, ao brincar com as crianças, no contato com animais de estimação, na convivência com queridos amigos e amados familiares, no contato físico, no carinho, no toque, nas gentilezas oferecidas e recebidas, na diversão livre, espontânea na companhia de amados, na massagem, enfim na positiva aproximação e troca afetiva, causando então rápida recuperação celular, melhora do sistema imunológico, aceleração em processos de cicatrização e energização. Também de acordo com a neurobiologia, três são as grandes fontes de estresse humanas, ou seja, de liberação de cortisol, hormônio para o que a Ocitocina torna-se tão necessária; mudanças, separações e lutos[2].

Já para os Psicanalistas, o endereço das grandes tragédias humanas está no terreno da transparência afetiva, da transparência no afeto, nas barreiras que temos que nos foram ensinadas, ou que desenvolvemos para sobreviver e lidar com o afetivo ao longo da vida. E vale lembrar que é natural da mente humana antecipar imaginativamente catástrofes para o que teme, ou ainda não foi experienciado[3]. Será que estamos falando sobre modernidade e reaprender a vincular? Quem sabe para viver melhor?

Não sei. Minha intenção não é a de oferecer respostas, como Psicóloga Especialista em Luto e a partir de investigações Científicas no Mestrado em Teologia muito rapidamente aprendi a importância e riqueza das perguntas, outra de nossas principais fontes de vitalização. Dúvidas e nosso tão humano talvez estimulam a emergência dos verbos que levam a movimentos, fluência e ações, verbos são pontes e presenças vivas, são também o que somos, que partindo das mais honestas perguntas podem nos levar a conhecer com humildade epistemológica e sustentabilidade aquilo de que precisamos para viver. Portanto se tivesse que desejar algo fundamental para alguém, eu diria duas coisas: “- Que tenhas perguntas para sempre e que ouse buscar saber.” Assim nos mantemos verbos nessa vida de revelações. Não por acaso Jesus Cristo é chamado Verbo de Deus.

“Dúvidas,” “talvez” e “verbos,” são expressões que nos convidam a adentrar no tema Espiritualidade, assim também dentro das perspectivas da Modernidade. E a seu modo, ou seja, de maneira bem peculiar, do objetivo ao intersubjetivo, religioso, cultural e/ ou filosófico, do genérico ao específico, também nos conduzem a pensar a ciência e a fé, resiliência e  estruturação humana, bem como, quem sabe todas as confusões que estes termos, neste tempo, podem propor numa vida então cheia de demandas determinadas pelo desejo de conhecer,  crescer, vencer dificuldades e encontrar meios para viver melhor e por mais tempo.

O diálogo entre fé e ciência está nas dimensões da Teologia, cujo rigor metodológico aplicado deve auxiliar e instrumentalizar para além do simples empirismo os portadores da fé e os não portadores, a conviver com todas as formas de pensar, isto rompe com fundamentalismos religiosos, fruto de uma teologia narcisista, fechada sobre si mesma[4], assim como busca transpor com a mesma seriedade tendências absolutistas ou relativistas, propondo um diálogo nos termos saudáveis de uma respeitosa e criativa  relacionalidade[5].

A teologia ao estudar e aprofundar as questões relacionadas a fé, enquanto atitude e conteúdo, desafia-se a sustentar a possibilidade, o significado e a complementaridade coerente ante as conquistas da ciência, garantindo o espaço e a liberdade das ciências também no âmbito da fé. Muito se tem argumentado contra a qualidade científica da teologia acusando-a de ser subjetiva em suas conclusões e impedida de universalização, porém a mesma afirmação pode-se aplicar a tantos outros campos, cuja cientificidade não se costuma por em questão, tal como a Psicologia, a Psicanálise, a Política, a Economia, a Filosofia, as Ciências Sociais, ao menos esta questão não é posta de modo tão agudo nessas ciências[6].

Assim ao longo da História muitos conflitos ocorreram entre a fé e a ciência, casos clássicos como, por exemplo, de Giordano Bruno e Galileu Galilei, onde resultados científicos mostraram-se conflitantes com a fé e foram marcantes. Por isso hoje para algumas pessoas é difícil compreender as associações, pesquisas ou descobertas que avancem na intersecção ou integração dos dois campos destes saberes científicos e alguns inclusive questionam sobre se teologia pode ser considerada ciência. Porém é fato que a teologia se encontra diante do desafio de articular o encontro entre as duas formas de manifestação de uma mesma realidade última: a pesquisa do universo finito e o dom da fé. Assim sendo, a ciência quer compreender a realidade e circunstancialmente oferecer a possibilidade para uma utilização melhor dos recursos disponibilizados e como a fé diz respeito a toda a realidade e para além desta, a uma realidade simbólica, sacramental, maior e última relacionada a um Mistério Divino, esta também inclui o objeto das ciências e serve-se de seus métodos[7].

Na Modernidade, portanto os que crêem, como os que não crêem, se vêem envolvidos em questões associadas à ciência e a fé, e parece-nos que quanto mais andamos na direção do futuro, mais próximas se tornam essas áreas do conhecimento e muito mais dialogam. Para Ratzinger tanto um fiel como um incrédulo participam, cada um a sua maneira, da dúvida e da fé, desde que não se escondam de si mesmos e da verdade de Ser e do seu Ser. Nenhum consegue fugir totalmente da dúvida, nem da fé; para um, a fé marca presença contra a dúvida, é verbo, creio, para o outro, a fé está presente pela dúvida e na forma da dúvida. O autor compreende que faz parte da essência Humana tentar encontrar um caráter de sentido para sua existência nesta rivalidade interminável entre fé e dúvida, entre incertezas e certezas. E é exatamente a dúvida, que preserva ambas as dimensões da reclusão egocêntrica no próprio eu, lugar precioso onde esta comunicação pode realizar-se. É a dúvida, o talvez, que impede a ambos de se fecharem completamente em si próprios, é ela que quebra a casca de quem tem fé, abrindo-o para o que mais pode saber e buscar, para aquele que tem duvida, e conseqüentemente abre a casca de quem duvida de tudo para aquele que tem fé; para um, a dúvida é a sua maneira de participar do destino do incrédulo, para outro é a forma que a fé encontra para continuar sendo desafio e movimento[8].

Em rápida perspectiva histórico-evolutiva, ouve um tempo em que o ser humano via-se as voltas com o sobrenatural por desconhecimento, a Ciência começa a nascer a partir da Filosofia, da Teologia, mais tarde na força dos fatos, na própria História, como área do conhecimento, até que no século XVII ocorre o fenômeno definido como virada antropocêntrica, o início da modernidade. Para cada período histórico, portanto, pode-se dizer que haviam demandas decorrentes, por exemplo na idade das cavernas o que precisava um homem conhecer para viver bem?

Em períodos filosóficos e históricos, por exemplo, o conhecimento através de leituras passou a tornar-se parte imprescindível da vida cotidiana, já no boom científico, a partir da Revolução Francesa, do Iluminsmo, da descoberta da luz elétrica, água encanada etc, o homem precisou conhecer mais das ciências e sua formação profissional também sofreu essas inferências sob forma de exigências… Ora porque atualmente temos falado então sobre ciência e fé? É possível que estejamos diante de um novo tempo, onde pela velocidade de conexões e informações, pelo tamanho de nossos desafios, e vulnerabilidades, tenhamos que ser mais do que conhecedores de aspectos filosóficos, tecno-científicos, históricos, ou ainda especificamente teológicos… Parece que atualmente a um médico cirurgião, por exemplo, por excelente que seja no desempenho de suas funções, não será suficiente tratar seus pacientes apenas como exímio especialista em dutos e encanamentos, como perfeito engenheiro do corpo humano. O mundo nos pede mais, parece solicitar uma espécie de busca por integração de todas as áreas do conhecimento desenvolvido e em desenvolvimento. Uma espécie diferente de interdisciplinaridade, uma inter-comunicatividade, se o especialista na falange do dedinho do pé já não é suficiente, o que estamos querendo? E esta carente demanda tem razão de ser? Parece que estamos querendo o inteiro. Quem sabe que o universo fora de nós, possa apresentar-se bem estruturado e integrado ao de dentro, e vice-versa. Nessa linha de raciocínio parece que estamos buscando a um conceito que alguns autores definem como PESSOA.

Assim decisões no início, ao longo e no final da vida, ganham expressões e novas áreas do conhecimento como Humanização, Bioética, Cuidar e Cuidado na atualidade que acabam por receber muito espaço acadêmico e organizacional. Cuidar, por exemplo, passa a ser claramente diferente de tratar, tratar passa a ser uma expressão compreendida em uma referência de conserto, com potencial importância no resultado final positivo e esperado, com valor maior para o controle de todas as variáveis, buscando o maior poder de inferência possível sobre as mesmas, uma relação dinamizada em uma perspectiva sujeito-objeto, enquanto cuidar implicará em acompanhamento, em uma dinâmica sujeito-sujeito, numa perspectiva de convívio e não de domínio, na direção de uma idéia de interação e não de intervenção.

O conceito Pessoa então associado ao desenvolvimento humano pessoal e profissional na atualidade parece alertar para a necessidade de resgatar as conseqüências fragmentárias de nossa própria história evolucional. Para Seligman[9] uma Pessoa é composta de 24 forças distribuídas em 6 virtudes. Cita no grupo da Virtude do Saber e do Conhecimento as forças de: curiosidade, gosto por aprender, critério, habilidade em conhecer, inteligência social e perspectiva. No grupo da Virtude da Coragem as forças de: bravura, perseverança e integridade. No grupo da Virtude Humanidade, as forças de: bondade e amor. Na Virtude da Justiça, as forças de: cidadania, imparcialidade e liderança. Para as Virtudes da Moderação aponta as forças de autocontrole, prudência e humildade. Interessante notar que na Virtude da Transcendência o autor descreve o maior número de forças humanas: apreciação, gratidão, esperança, espiritualidade, perdão, bom humor e animação.

Outra frente avançada das ciências hoje é constituída pelo estudo do cérebro e de suas múltiplas inteligências e tais estudos alcançaram relevantes resultados sobre espiritualidade e religião, bem como recursos psíquicos para desempenho pessoal e profissional, nestes enfatizam-se três tipos de inteligências.

A primeira é a inteligência intelectual conhecida como QI, ou quociente de inteligência analítica, emergiu na entrada do século XX, com ela organizamos o mundo e solucionamos problemas objetivos.

A segunda é a inteligência emocional, QE, popularizada pelo neurocientista David Goleman em Harvard. O cientista sustenta que somos primariamente seres de paixão, empatia e compaixão, não é o logos (a razão) que nos toma, mas sim o pathos, as emoções, é somente a seguir que utilizamos da racionalidade e quando combinamos QI e QE conseguimos melhor mobilizar a nós mesmos e aos outros.

A terceira é a inteligência espiritual, QEs, identificada em pesquisas com especialistas em magnetoencefalografia, médicos, neurólogos, neuropsicólogos e neurolinguistas. Esses cientistas apoiam suas pesquisas em dados que dizem ser cientificamente verificáveis, sustentando que há outro tipo de inteligência, pelo qual captamos fatos, idéias, e emoções, mas os percebemos em contexto de amplo espectro em nossas vidas, totalidades significativas que causam uma espécie de sentido de inserção a um todo, experiências de exaltação, intensa e diferenciada alegria, como se o indivíduo estivesse diante de uma amorosa presença viva, que, portanto, nos tornam sensíveis a valores e questões ligadas ao sentido da existência, transcendência, Deus, sensações místicas de contemplação e gratidão, entre outras relacionadas ao tema como confiança, pertencimento, reasseguramento, continuidade, previsibilidade e auto-estima, perdão e esperança, discernimento e criatividade. Sua base fenomenológica reside na biologia dos neurônios, neurobiólogos como Persinger, Ramachandran e a física quântica de Danah Zohar chegaram a batizar uma determinada região no lobo temporal de região da Espiritualidade. De modo geral tais estudos sugerem que possamos funcionar ao longo da vida desenvolvendo tais recursos.

No que se refere à espiritualidade vale lembrar que é diferente de religião ou religiosidade. Ambas complementam-se, porém não devem confundir-se. Considera-se antes mesmo dos estudos neurológicos que a espiritualidade, como transcendentalidade no ser humano, existe desde que o mesmo irrompeu na natureza, já as religiões são recentes[10].

A religião é uma forma instituída de manter uma re-ligação espiritual, logo pode ser concebida como uma forma de institucionalização da espiritualidade. Todas as religiões deveriam ser a princípio fontes e expressões da espiritualidade, porém nem sempre isto ocorre. Em geral as religiões são também compostas por um catálogo de regras, crenças e por vezes sérias restrições ou proibições, enquanto a espiritualidade é a expressão de uma fé livre e criativa. Diz-se que na religião pode existir o predomínio de uma relação onde a voz exterior, da autoridade religiosa ocupa um tom de maior obediência, enquanto na espiritualidade, a voz interior tem maior atenção e escuta, o “toque” do inefável, do Divino[11].

Considerando que o povo brasileiro diz-se católico, lê o caderno de horóscopo, visita o centro de Umbanda vez ou outra, toma passes no centro espírita, batiza os filhos na igreja de sua comunidade e joga na mega sena… Diferentes teólogos Cristãos atualmente concluem que urge as religiões tornem-se fontes de espiritualidade, da prática do amor, da justiça e da compaixão a serviço de todos. A espiritualidade deveria ser a porta de entrada das religiões o que pressupõe uma honesta experiência de Deus, uma abertura ao Mistério, um mergulho no verdadeiro sentido e riqueza dos Textos Sagrados. Uma forma segura, organizada de crer, ou seja, de crer em algo que não gere confusões filosóficas e espirituais num mundo que já tem diluído importantes norteadores.

Assim faz todo sentido pensar que uma espiritualidade instituída em uma base religiosa forte, saudável, livre e firme poderá oferecer ao indivíduo um importante senso de orientação, pertencimento comunitário, sentido pessoal e social para a vida, frente às adversidades. Além de proporcionar vínculos, sugerindo então que, uma boa aliança entre espiritualidade e religião poderá, pela vinculação segura a bons grupos de convivência, melhorar os níveis de ocitocina, criando e mantendo novos laços no combate ao estresse. Espiritualidade e religião que deste modo, vem a oferecer recursos, suporte e completude ao ser humano fazendo frente às ameaças a vida, a serviço de preservar e manter a saúde emocional, física e mental.

Especialmente no que se refere às organizações é preciso lembrar que está na dimensão espiritual também os recursos resilientes humanos relacionados a capacidade de reconhecer o todo e a fonte, origem e fim, busca de sentido tão necessário diante de grandes desafios e mudanças, bem como o desejo de ir além do ordinário, mas reconhecer o extraordinário dentro do ordinário, portanto a criatividade, a luz, a possibilidade de sair do óbvio, de transcender a compreensão de experiências, não puramente objetivas, nem primordialmente subjetivas, mas a completude, o transitar, o aberto, as pontes, as ressurreições que se escondem atrás de cada fim, o amparo que nasce da capacidade de vislumbrar um mundo de respostas e revelações que não aparece concretamente diante de nossos olhos, mas que surge e aquieta mentes e corações em momentos de desafios. A capacidade de tolerar, de aguardar sem sentir-se invadido, perdido ou falente.

Teresa de Ávila chamava isto de superabundância, de onde retirava forças e motivação para enfrentar as dores do mundo, espaço sagrado onde se sentia não como apenas mais uma, mas alguém com um dom precioso chamado vida. Onde até mesmo a solidão trazia sentido, pois tornava-se solidão acompanhada da presença Divina, um chamado, uma transformação da realidade[12], não pela mudança radical da resolução de todas as dificuldades, mas uma janela, um através de… Onde tudo pode ser visto de um modo então terceiramente mais amplo e profundo, quem sabe um terceiro olho, um terceiro ouvido… Em Ávila é possível subtrair que no coração da Inteligência Espiritual e da Espiritualidade está a Providência Divina que implica receber do inesperadamente criativo o que você nem imaginava necessitar e repentinamente reconhece-se tão imprescindivelmente bom e acolhedor.

A Espiritualidade em instituições e processos de mudança, no uso da Inteligência espiritual em suas forças, é facilitadora de processos de desenvolvimento, senso de equipe e lideranças, propõe ampliações, leituras menos empobrecidas, análises mais ricas, estimulando o enfrentamento dos desafios com menor terror e angústia, aproxima, pois atende a necessidade que tem todo ser humano para ser suportado em momentos difíceis sem ser julgado, uma vez que espiritualidade pressupõe oferecer o que desejaríamos receber, a consciência séria e profunda de que na virada da próxima esquina as dificuldades podem ser nossas e não de outros.

No prognóstico de um mundo pós-privacidade[13], ou seja, onde o excesso do nada está engolindo tudo, onde pouco existe de espaço privado, pois tudo é do conhecimento de todos, o terrível cancelamento da intimidade, da interioridade, da reflexão, da meditação e obviamente a dificuldade de saber, ou sentir o que seja um relacionamento profundo, e  diria-se  especialmente consigo, ainda mais com a verdade, com a vida e o caminho. Onde há tanta difusão de comunicação, relações truncadas, obstacularizadas, não admira que tenhamos que pensar sobre espiritualidade e este talvez seja o maior e melhor alerta preventivo e porque não dizer socorro, que possamos encontrar diante da perda de essência, do risco da infelicidade e do igualmente grande vazio generalizado, o retorno… Algum retorno.

Assim por último e não menos importante, estão localizados os dois principais recursos também resilientes da espiritualidade; a definida como a alegria de se por a caminho do retorno, e a esperança; a presença da eternidade dentro de tempo.

Esperançar é habilidade colocada acima do ato de temer ou duvidar, não passiva porque é inalcançável pelo nada que nos ameaça. Um desejo apaixonado por tudo que pode dar certo, portanto contrário a crença no fracasso.  Esperançar é a ação de um afeto poderoso que convida as pessoas para que se lancem ativamente naquilo que vai se tornando melhor a cada dia, a cada pequeno, porém, precioso passo.

O afeto de esperançar que a espiritualidade traz retira o indivíduo de uma visão turva egocentrista e limitada do si mesmo, amplia seu ser e suas possibilidades ao invés de estreitá-las. Significa o transpor, revela o negado e o omitido, por isso não é mero entusiasmo, por vezes dói, exige, é princípio ativo, capta o novo pelo que está em movimento[14].

Um mundo, uma família melhor, uma organização empresarial melhor, não será construída por uma esperança futura, essa é a armadilha no caminho, o risco que nos estimula a não nos responsabilizarmos pela caminhada que acontece hoje, fazendo parecer que assim é o possível ou confortável. Fenômeno que faz-nos negar o tempo que acontece agora, que nos demora no “ainda não,” tempo perdido, “comidas requentadas com jeito de novas”, tempo perdido com a tremedeira do próprio joelho. Esperançar é ir, como for possível, ir. É saber que andar, valerá à pena e é nossa única e verdadeira chance das coisas tornarem-se melhores.

O verdadeiro tempo não é uma sucessão de ontens e amanhãs na vida de alguém, é plenitude da vida EM alguém, EM você e em quem está com você. O instante eterno se revela dentro do tempo, em nossas escolhas, é futuro que se derrama no presente e o transforma[15]. É hora de acordar, fazer novos acordos, é hora de insights, de recolocar identidade e valor na própria existência, de sair do mínimo, do descartável. É hora de construir no terreno do para sempre de cada um de nós, redescobrir recursos próprios, é hora de pés no chão, cabeça erguida, olhar para o alto[16], coração atento, aberto e vibrante, é hora de voltar a crer, também em si mesmo. É hora de buscar… Afinal, não é o mundo que nos constrói, nós o construímos.

E quanto aos nossos sofrimentos e dificuldades, como disse Teresa Ávila:

Das tramas de uma vida torturada, Deus faria nascer uma espada de Luz.

Como dizem os especialistas que estudam a formação das estrelas no céu; é necessário um grande caos para fazer nascer uma enorme estrela, assim acredito também que podemos destinar nossas dores a Resiliência, deste modo também seguiremos construindo e nos fortalecendo em meio às adversidades. Enquanto nossos aprendizados, vínculos e forma de amar podem semear vida e esperança, seguiremos em Verbo, buscando entender, e neste Sopro, o descanso…

Não procuro Senhor, penetrar Tua profundidade, Porque de maneira nenhuma posso comparar minha inteligência a Sua, Mas desejo entender, de certa forma,  A Tua Verdade que meu coração crê e ama. Nem procuro entender para crer, Mas creio simplesmente, para entender. Pois, até isto eu creio: que se não acreditar, jamais entenderei.” (Santo Anselmo)

***

[1] De acordo com Prof. Dr. Lucas Oliveira, Neurobiólogo da Universidade de Caxias do Sul, a Ocitocina reduz o Cortisol provocado em Circunstâncias de Estresse.  Cortisol que como manifestação hormonal no Estresse Crônico gera importante baixa imunológica, falta de energia e motivação, hipertensão, humor deprimido, intolerância e aumento da agressividade, baixa atenção e concentração, redução da memória declarativa… Conteúdo desenvolvido em aula expositiva aos membros da Luspe Instituto de Psicologia, matriz Caxias do Sul em Junho /2015.

[2] Idem.

[3] Prof. Mestra pela Puc de São Paulo em Psicologia Clínica e Psicanalista, Cecília Casali, em aula Expositiva na Luspe Instituto em Maio/2015.

[4] Hammes. E. Possibilidades do diálogo entre teologia e ciência.WWW.ihu.unisinos.br. Edição 404. São Leopoldo, 05 de Outubro de 2012.

[5] Moltmann. J. O Deus Crucificado; a cruz de Cristo como base e crítica da fé cristã. Editora Academia Cristã. Santo André. SP. 2011. P 28.

[6] Hammes. E. Idem.

[7] Ibidem.

[8] RATZINGER. J. Introdução ao Cristianismo; preleções sobre o sómbolo apostólico com um novo ensaio introdutório. Edições Loyola. Quarta Edição, 2011, SP.Pp 36, 37.

[9] SELIGMAN, M. E. P. Felicidade Autêntica. Editora Objetiva. RJ. 2004.Pp 161 a 179.

[10] Concepções de Leonardo Boff e Frei Beto sobre Espiritualidade e Religiões.

[11] Idem.

[12] A Conexão Mística de Teresa de Ávila e Thomas Merton, IHU ON-LINE. Unisnos, número 460 Dezembro de 2014.

[13] Idem.

[14] Bloch, E. Princípio Esperança Vol I.

[15] Ratzinger.j. in Bento XVI Carta Encíclica; Spe Salvi.

[16] Chardin, T.

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