E disseram os Deuses … “Vida e Morte poderiam trabalhar juntos” … e riram … Por: Ana Reis

Ana Paula Reis da Costa, 1999.

Os Deuses eram como supervisores acadêmicos, reclusos no Olimpo, em tempo e espaço bem definidos, não sentiam muito além. Bem, eram Deuses afinal. O universo naquelas épocas era algo passivo, estruturado, uniforme e completamente sob controle, organizado e tranqüilo, como toda coisa estática é. E do Olimpo os Deuses acompanhavam tudo, obviamente sem sair de seus lugares, cheios de si, sábios, tão superestimados por si mesmos, curiosos … desejavam divertir-se e realizaram o desafio de colocar a Morte para conviver com Vida.

Morte tão onipotente e sombria, sorriu ironicamente. Perversa pensava que certamente acabaria com a alegria de Vida em pouco tempo, provaria que tudo é falível e frágil. Poderia dar limites, soberana a qualquer coisa que se apresentasse a sua frente, já que ela mesma representava o próprio limite de tudo. Morte era como a Lua, cercada de escuridão, solitária e fria.

Vida topou o desafio, divertia-se com a onipotência da Morte em silêncio, e pensava desdenhoso no quanto a Morte era vazia. Vida era essencialmente criativo e simples, quase genial. Nada esperava da Morte a não ser a finitude e não tinha receio, sempre fora corajoso e conhecia bem seus limites.

Quente e acolhedor como o Sol, Vida apresentou-se educadamente à palidez da Morte.

E ambos iniciaram seu convívio …

Para espanto dos Deuses, o casal não discordava, vistos de cima, Vida e  Morte juntos compunham um quadro pitoresco, uma parceria sem nome. Em ações podia-se perceber que a Morte tentava engolir Vida, mas Vida revertia estes investimentos em auto defesas para benefício próprio e seguia prosperando.

Morte traidora e dissimulada, egocêntrica e perspicaz pensou num plano, testaria Vida em sua fragilidade mais íntima … naquilo a que os Deuses chamariam de “Calcanhar de Aquiles” de Vida: o amor.

Morte sedutora e bela em toda sua obscuridade, mistério e força, mostrava-se feliz por estar com Vida, até o elogiava … usava de todos os seus perfumes e encantos, fazia as noites parecerem belas, sorria bem humorada, ondulava seus cabelos negros ao vento e deixava a mostra suas curvas e entorpecimentos … plena de sortilégios ocultos.

Mas para conquistar Vida, a Morte teve que se aproximar, e num primeiro momento se satisfez ao perceber que estava quase atingindo seu objetivo, Vida começava  interessar-se por ela. No entanto, com o passar dos dias e noites, Morte começou a sentir-se perturbada e confusa, pois não estava mais gostando da solidão. Sua cor de pálida foi a dourado, já que havia-se permitido aproximar-se do Sol. Aprendeu a gostar do calor e precisava encontrar um modo de matar  Vida, antes que Vida tomasse conta dela. Sentiu sua onipotência reduzir-se aos poucos, então decidiu, para não fragilizar-se mais, realizar o ato de engolir Vida.

A Morte chamou por Vida, e desejosa, cheia de volúpia, foi enroscando-se calma, vagarosa e deliciosamente pela extensão de Vida como uma serpente. Vida enebriado, não resistindo a tanto encantamento, penetrou a Morte com toda sua delicadeza e vigor. Morte sentiu-se invadida de luz e pela primeira vez foi tomada de um prazer diferente que lembrava-lhe … a continuidade.

Agora tendo experimentado Vida, Morte afastou-se assustada e muda. Descobriu que não podia mais ver-se sem amor, sem toque, sem luz e calor. Ela havia compreendido o significado de duas pequenas palavras: amor e respeito. Desesperada, Morte pensou ter matado a si mesma …

Os Deuses contam que depois disto Vida andava irritado e insatisfeito, notaram que sua luz, houve um tempo, chegara brilhar menos. Queria estar com MorteVida havia descoberto em Morte o sentido para si mesmo. Pensava Vida: “A Morte qualifica e valoriza tudo o que eu sou …” Vida compreendeu o significado da dor, da falta e da saudade, não conseguia mais desapegar-se de Morte

E o laço entre ambos solidificou-se, Vida e Morte não podiam mais lutar contra si mesmos. Afastados eram meios, porém juntos representavam a coisa mais caótica, ambígua, paradoxal e dinâmica que o universo jamais conheceu … a plenitude. O tempo tornou-se eterno e o espaço infinito …

Os Deuses, tomados de admiração e pavor, viram nascer daquela união uma criatura medonha, que tomaria conta de tudo, acabando por excluí-los completamente do Universo.

Uma criatura frágil e forte, pequena externamente, porém grande internamente, organizada mas relativamente desorganizada por vezes, repleta de bem e de mal. Sem dúvida, alguém que tinha mortalidade, no entanto, com a capacidade de tornar-se tanto mais imortal, quanto mais fosse amado. A criatura era a essência do tudo e do nada … ambivalente, podia administrar com ou sem dificuldades qualquer situação. A cada segundo formava e transformava o universo, que prosperava, regredia, evoluía, avançando no futuro muito além do que se poderia planejar.

Sem controle, o caos instaurou-se, e a criatura vivenciava-o de modo flexível e natural, administrando tudo. Movida por sentimentos e pensamentos, deixava no passado o que a ele pertencia, ou fazia deste, sabedoria à estruturar o presente e o futuro. Ora apegada, ora desprendida. Uma criatura com tamanha fé que poderia inclusive, superar a si mesma, de outro modo, tão humilde que esperava contar com outros …

Os Deuses, submersos na desolação e insegurança, pois eram unos, imparciais, não sabiam lidar com paradoxos, antes de partir, solicitaram um último pedido: “Que batizem a criatura!”

Vida descordou, disse que seu filho era sentimento, não deveria carregar sequer uma palavra. Morte concordou com os Deuses, usando a razão, disse que seu filho precisava de uma identidade.

Discutiam fervorosamente … Vida em nome do amor que sentia por sua esposa Morte, sugeriu Humanidade. Morte suplicava por Existência. E a criatura inquieta, surpreendendo a todos sussurrou: “Quero me chamar Homem”.

E por Homem, a criatura foi batizada, pelo Sol e por Vida; pela Lua e pela Morte, com o consentimento dos Deuses, que abandonaram-se em fracasso, tomando a boa e velha decisão que tomavam sempre quando algo de novo poderia vir a acontecer: “Não devemos mais nos arriscar”.

Creiam todos que esta história foi redigida pela Morte, que ainda hoje, sente a necessidade de dar palavras para Vida. Vida aceitou, sabe que Morte neste exercício reviu sua história aceitando sua essência; o recomeço e a possibilidade de reconstrução.

Assim o casal mantêm-se unido …

Obviamente discutem, principalmente quando Vida alega que Morte é parte dele. Morte fica brava e nega, mas em seu íntimo o ama, e sabe que Vida venceu.

É que Vida sempre foi fiel aos seus princípios e Morte é ciumenta …

Bem, determinadas coisas nunca mudam …

Vejam os Deuses, continuam lá no Olimpo, supervisionando a si mesmos …

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