A Alice de todos nós – Por: Ana Reis

Inevitavelmente, em algum momento, enfrentaremos uma queda vertiginosa para dentro de nós. O tropeço, num “buraco” profundo que nos levará para um “mundo subterrâneo”, aquele endereçado abaixo da consciência, da superfície do mundo real; “O País das Maravilhas”.

Pode ser em função de um luto, uma separação conjugal, uma importante crise financeira, os votos do casamento, uma mudança de endereço, a escolha de uma carreira, a necessidade de tomar uma decisão… ou seja, acontece quando a vida muda, sem barganhar muito com a gente.

Episódios assim, exigem redescobertas, reconhecimentos. As vezes, você realmente nasce nesse tropeço, nesse processo. A queda para dentro de si, é angustiante, confusa e assustadora. Justamente porque descobrir quem você é de verdade, não é uma tarefa fácil. Será que você é o que esperam ou dizem de você? Ou, você é, honestamente o que deseja ser? Se é o que deseja, isso é bom? E se for bom, seria para quem além de si mesmo? Momentos que incluem sentir-se grande (onipotente), que oscilam com outros em que nos sentimos tão pequenininhos (impotente). Alguns aqui fora apelidam isso de Transtorno Bipolar, rsrs. Mas, logo entenderá que terá que descobrir seu tamanho real, a sua própria potência (nem in, nem oni) e adonar-se dela.

E então, lá está você, contando com o que tem, vencendo seus dragões, o seu “Juaguadarte”, resgatando sua bravura (“sua moiteza”), tornando-se resiliente, para salvar seu “território interior”. Lugar onde estão todos os seus amigos, aqueles vínculos, os pedaços de você que foram registrados ao longo de uma vida inteira e que estavam abandonados, como um relógio parado no tempo. Mas, assim que você chega, faz com que os ponteiros comecem a andar, e tudo começa a fazer sentido novamente.

Há pedaços com M, pedaços maus, que sentem raiva e desejam cortar cabeças. Há pedaços corajosos, mas não muito hábeis, como ratinhos. Há outros sábios e questionadores, que apontam o dedo para a sua “moleira”, lhe ensinam sobre morrer, transformar, ganhar asas. Há pedaços brancos, que sabem o que é correto fazer e parecem ter bom senso. Há outros peludos e espertos como gatos. E ainda outros fortes, acorrentados, mas solidários, que curam suas feridas. Há um em especial, que lhe ensina, porque é fiel, sensível e amoroso como um grande amigo, uma voz paterna.

E com a ajuda deles, você descobre que não é um sonho. Que você existe de verdade. Tem idéias e desejos próprios e então estará pronto pra lutar.

Depois de uma grande aventura como essa, você terá que abandoná-los, deixar os pedaços partidos para integrá-los em você, e voltar para a vida real. Alguns podem chamar essa etapa de adolescência, eu prefiro chamar de viver. Afinal quem de nós não viveu uma grande aventura para descobrir quem é de verdade? Mais tarde, tendo que abandonar aquele período da vida, levando consigo seus aprendizados, amores, creditado de confiança. Tenho certeza de que muitos de nós. E quem ainda não viveu, prepare-se, os buracos estão por ai, cair está previsto, a surpresa é sair deles com todas as nossas “Maravilhas” e riquezas bem conscientes, prontas para serem utilizadas, considerando também, os benefícios de “acreditar em 6 coisas impossíveis antes do café da manhã”.

Se você ainda não assistiu Alice no País das Maravilhas, não perca, “caia dentro”.

Ana Reis
Psicóloga Especialista em Luto e Perdas.

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